O Leme cabe em pouco mais de dez quadras, mas a história dele começa muito antes da primeira rua. Começa no mar, aliás: foi de bordo dos navios que se aproximavam da barra que alguém olhou para o morro de pedra na ponta da praia e enxergou ali o formato de um leme de embarcação. O nome pegou, atravessou os séculos e hoje batiza a pedra, o morro, a praia e o bairro onde a gente vive.
Antes disso, essa faixa de areia espremida entre a pedra e o que hoje é a Avenida Princesa Isabel era só a ponta de um areal comprido que os tupis chamavam de Sacopenapã — o caminho dos socós, aves que viviam na restinga. Nada de calçadão, nada de quiosque: duna, vento e quase ninguém.
O morro que vigia a barra
A pedra sempre foi ponto estratégico: do alto se enxerga a entrada da Baía de Guanabara. Foi por isso que o vice-rei Marquês do Lavradio mandou erguer lá em cima, entre 1776 e 1779, o Forte do Vigia — um posto sem artilharia, feito para avistar qualquer vela suspeita no horizonte e dar o alarme na cidade.
O forte que existe hoje no topo do morro é bem mais novo. Foi construído entre 1913 e 1919 sobre as ruínas do Vigia, já com canhões de grosso calibre e casamatas de concreto — e hoje está aberto a visitação. Depois da Proclamação da República, passou a ser chamado de Forte do Leme; em 1935, ganhou o nome oficial que carrega até hoje: Forte Duque de Caxias. O quartel na base do morro, no fim da praia, é da mesma leva de obras.
Chácaras, pescadores e os primeiros lotes
Durante quase todo o século XIX, o Leme foi fundo de quintal da cidade. Do lado de cá dos morros havia chácaras, roças e ranchos de pescador — e chegar aqui era uma pequena expedição, por mar ou por trilhas que cruzavam as encostas a partir de Botafogo.
Isso começou a mudar na década de 1890, quando a Empresa de Construções Civis loteou o areal de Copacabana e do Leme. Em 1894, o engenheiro Antonio de Paula Freitas projetou o arruamento: as ruas retas que a gente percorre hoje nasceram no papel dele antes de existir uma casa sequer.
O Túnel Novo abre a porteira
Copacabana nasceu oficialmente em 1892, com a abertura do Túnel Velho, lá pelos lados da Real Grandeza — longe daqui. O Leme seguiu isolado por mais uma década, até a prefeitura de Pereira Passos tocar a obra do Túnel Novo: começada em 1904, inaugurada em março de 1906, ligando Botafogo direto à Avenida Princesa Isabel, na nossa porta.
Dali em diante, tudo mudou de ritmo. Pelo túnel passaram os bondes elétricos da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, e atrás deles vieram as casas de veraneio, os hotéis e os primeiros moradores fixos. O bairro que era o fim do mundo virou, quase da noite para o dia, a porta de entrada da orla.
A divisa que ninguém vê
Quem atravessa a Princesa Isabel a pé nem repara que mudou de bairro. Mas é ali que Copacabana termina e o Leme começa — e qualquer morador jura que dá para sentir: menos buzina, menos gente, o mesmo mar. No papel, fazemos parte da mesma região administrativa; na prática, o Leme sempre funcionou como uma cidadezinha à parte, com a vantagem de a praia acabar em pedra, e não em avenida.
Babilônia e Chapéu Mangueira
A história do bairro também foi escrita morro acima. A Babilônia começou a ser ocupada ainda na segunda metade do século XIX, pela parte mais alta — em 1907, os jornais da cidade já registravam os barracos na encosta. O nome, dizem, veio de quem olhava o morro desde a Urca e lembrava dos Jardins Suspensos da Babilônia, com suas camadas de pedra e mata.
O Chapéu Mangueira veio logo depois: entre 1911 e 1912, as primeiras famílias a subir eram de operários que trabalhavam nas obras do forte. O nome é herança da Fábrica de Chapéus Mangueira, que ficava onde hoje está o Leme Tênis Clube. Juntas, as duas comunidades somavam cerca de três mil moradores no Censo de 2022 — e fazem parte do Leme tanto quanto o calçadão.
Datas para guardar
- 1776–1779: construção do Forte do Vigia, no alto do morro
- 1892: inauguração do Túnel Velho — Copacabana nasce oficialmente
- 1894: projeto de arruamento do areal, de Antonio de Paula Freitas
- 1906: inauguração do Túnel Novo
- 1913–1919: construção do atual forte sobre as ruínas do Vigia
- 1935: o forte recebe o nome de Duque de Caxias
De lá para cá o Leme cresceu, verticalizou, ganhou quiosques e ciclovia — mas a geografia que decidiu tudo continua no lugar: a pedra de um lado, a avenida do outro, os morros nas costas. O bairro termina onde começou: na pedra que parecia um leme.
Foto de capa: Entrada do Túnel Novo, que ligou o Leme ao resto da cidade a partir de 1906. Foto: Acervo Instituto Moreira Salles / Wikimedia Commons, domínio público.
