Bairro pequeno tem uma vantagem: as histórias ficam todas perto umas das outras. No Leme, a mesma calçada que leva à padaria passa em frente ao prédio onde morou uma das maiores escritoras do país, e a ladeira que sobe para o Chapéu Mangueira carrega o nome do compositor de “Aquarela do Brasil”. Não é preciso inventar nada — basta juntar o que já aconteceu por aqui.
Separei alguns desses causos, todos verificáveis, para quem gosta de andar pelo bairro sabendo onde está pisando.
Clarice morava no 701
Clarice Lispector chegou ao Leme em 1959, de volta ao Brasil depois de anos fora, e logo comprou na planta o apartamento 701 da Rua Gustavo Sampaio, 88. Mudou-se em 1965, com o prédio recém-entregue, e ficou ali até morrer, em 1977 — os últimos doze anos de vida passados a uma quadra da areia, por onde caminhava com frequência.
Em 2016 o bairro retribuiu: ganhou uma estátua de bronze da escritora na mureta do calçadão, quase na Pedra do Leme, obra do escultor Edgar Duvivier, que a retratou sentada ao lado de Ulisses, seu cachorro. Sem patrocínio para bancar a escultura, o artista produziu 40 miniaturas da peça, vendidas a admiradores da escritora — e acabou fundindo 51, porque 11 foram furtadas e precisaram ser refeitas. Hoje é difícil passar por ali num fim de semana sem ver alguém posando para foto ao lado dela.
O morro que o cinema conhece bem
O Morro da Babilônia, com as comunidades da Babilônia e do Chapéu Mangueira, é provavelmente o pedaço do Leme mais filmado da história. Começou cedo: em 1959, o francês Marcel Camus rodou ali cenas de “Orfeu Negro”, adaptação da peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes. O filme levou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro — e as imagens do Rio vistas lá de cima rodaram o mundo.
Quarenta anos depois, na manhã de 31 de dezembro de 1999, Eduardo Coutinho subiu o morro com cinco equipes de filmagem e passou doze horas registrando os preparativos da virada. O resultado é o documentário “Babilônia 2000”, lançado em 2001: moradores contam suas expectativas para o novo milênio enquanto, lá embaixo, Copacabana arma a festa que eles assistem de camarote.
A lista segue: a cena de abertura de “Tropa de Elite” (2007) é um baile funk no Morro da Babilônia — e foi filmada no próprio morro, com os MCs Júnior e Leonardo, autores do “Rap das Armas”, cantando ao vivo. E em 2015 a Globo exibiu a novela “Babilônia”, de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, ambientada aqui na região e batizada com o nome do morro.
Ary Barroso e os outros vizinhos ilustres
A ladeira que liga o asfalto ao Chapéu Mangueira se chama Ladeira Ary Barroso, e não é homenagem de longe: o compositor morou ali mesmo e escolheu o Leme justamente pelo sossego que o bairro oferecia na época. Foi na casa da ladeira que compôs boa parte do seu repertório — e a casa, reformada, segue de pé.
E ele estava longe de ser o único nome conhecido por aqui. Os registros de memória do bairro listam entre os ex-moradores:
- Candido Portinari, o pintor
- Nelson Rodrigues, o dramaturgo
- Chacrinha, o Velho Guerreiro da TV
- Juscelino Kubitschek, o presidente que construiu Brasília
- Ivo Pitanguy, o cirurgião plástico
- Rogéria e Elke Maravilha, duas figuras que dispensam sobrenome
Para um bairro de poucas ruas, é gente demais por metro quadrado.
Quem foi Gustavo Sampaio, afinal?
Todo mundo conhece a rua; pouca gente sabe quem foi o homenageado. Gustavo Sampaio, cearense, era tenente do Exército e morreu com a guarnição da peça de artilharia que comandava na Fortaleza da Laje, na entrada da Baía de Guanabara, durante a Revolta da Armada — o levante de 1893 contra o governo de Floriano Peixoto. A rua principal do Leme, que antes se chamava Rua Bernardo de Vasconcellos, recebeu o nome dele pelo decreto municipal nº 1.165, de 31 de outubro de 1917.
Já o nome do próprio bairro é mais direto: a pedra na ponta da praia lembrava, para quem chegava pelo mar, o leme de uma embarcação. O apelido virou endereço.
O réveillon da ponta da praia
Quem passa a virada na areia do Leme vê a mesma queima de fogos de Copacabana — a curva da praia deixa as balsas todas à vista — com uma fração do aperto. É a ponta mais tranquila da festa: famílias de cadeira e isopor, vizinho encontrando vizinho, e o show inteiro na diagonal.
E vale lembrar o que Coutinho registrou naquele 31 de dezembro de 1999: do alto da Babilônia e do Chapéu Mangueira, os moradores assistem a tudo de cima, na melhor vista da cidade. O Leme é isso — um bairro onde até o réveillon tem mais de um ponto de vista, e todos eles valem a pena.
Foto de capa: A estátua de Clarice Lispector e do cachorro Ulisses na mureta do Leme. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil / Wikimedia Commons, CC BY 3.0 BR.
