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Gastronomia

Onde comer no Leme: do salão do Shirley ao boteco do Chapéu Mangueira

L Equipe do Blog do Leme
21 de julho de 2026  •  5 min de leitura

O Leme tem meia dúzia de quarteirões espremidos entre a pedra e Copacabana, e mesmo assim dá para passar um mês comendo bem sem atravessar a Princesa Isabel. A régua daqui é outra: restaurante bom é o que sobrevive a décadas de aluguel de orla, aguenta cliente de sunga e conversa comprida no balcão. Este roteiro é o que eu realmente uso — com a notícia triste no meio, porque bairro de verdade também perde clássico.

Shirley, o espanhol que não muda (ainda bem)

Na Rua Gustavo Sampaio, 610, o Shirley serve desde 1954 as receitas que a família fundadora trouxe da Galícia — o nome, aliás, homenageia a atriz Shirley Temple, ídolo da fundadora. Em novembro de 2025 a prefeitura fez o óbvio e declarou a casa patrimônio cultural carioca. O salão continua pequeno e com jeitão de outra época, e a cozinha é espanhola com sotaque carioca: paella valenciana para dividir e frutos do mar sem firula. Não aceita pressa nem gente demais: são poucas mesas, e no fim de semana costuma formar fila na calçada. Vá cedo, peça a paella e deixe o garçom conduzir o resto.

O La Fiorentina fechou — e os italianos que ficaram

É preciso dizer com todas as letras, porque muita gente ainda chega ao bairro procurando: o La Fiorentina, aquele da Avenida Atlântica que atravessou mais de seis décadas de boemia desde 1957, fechou as portas em fevereiro de 2023, depois de dívidas e despejo. O imóvel foi tombado pela prefeitura, que exigiu a preservação das marcas da casa — as paredes guardam milhares de assinaturas, incluindo dedicatórias de Pelé e Ayrton Senna —, e o ponto hoje abriga uma unidade do Boteco Rio’s. O salão que a gente conhecia acabou.

A boa notícia: a massa italiana não saiu do bairro. O Da Brambini, na própria Avenida Atlântica, é trattoria de família desde 1991, com serviço antigo e molhos de cozimento longo, aberta todos os dias do almoço à noite. E o D’Amici, na Rua Antônio Vieira, segue desde 1999 como o italiano de ocasião especial do Leme, forte em massas, frutos do mar e numa das melhores adegas da cidade — do tipo que enche de figurão sem perder a mão na cozinha.

Bar do David, a melhor razão para subir a ladeira

No Chapéu Mangueira, subindo a Ladeira Ary Barroso, o Bar do David é caso raro de fama justa. David Bispo, ex-pescador, abriu a casa em 2010 e fez dela o primeiro bar de favela a disputar o Comida di Buteco — e a colecionar prêmio. O carro-chefe é a feijoada de frutos do mar: feijão-branco com lula, polvo, camarão e mexilhão, servida na panela de louça, dando folgado para dois. Antes dela, croquete de frutos do mar e caldinho. Funciona de terça a domingo, do meio-dia às dez da noite; sábado é o dia de casa cheia e mesa dividida com desconhecido.

Se você só tem uma refeição no Leme, gaste no David: nenhum lugar resume melhor o bairro do que uma feijoada de mar servida no alto do morro.

Os quiosques: a cozinha de areia do bairro

A orla do Leme deixou há tempos de ser só água de coco e milho. Os quiosques de hoje têm cozinha de verdade, e alguns colecionam pódio no Sabores da Orla, o concurso gastronômico das praias cariocas.

  • Pedra do Leme — mais de trinta anos de orla, tocado por mulheres da mesma família, de mãe para filha. A sardinha frita é lendária e premiada: em 2025, a sardinha espalmada subiu de novo ao pódio do Sabores da Orla.
  • Ginga — comida de boteco com toque autoral: bolinho de costela, moela na cerveja preta, arroz de rabada. O pastel Um Quê de Bahia ficou no pódio do Sabores da Orla de 2025.
  • Mureta do Leme — quase na pedra, bom drinque e o melhor pôr do sol sentado do bairro.

O miúdo da Gustavo Sampaio

A Gustavo Sampaio é onde o bairro come de segunda a segunda. Tem a Frédéric Epicerie, no 802, padaria e bistrô de pães e doces franceses que virou o café da manhã de meio bairro. Tem os botecos de calçada — o Imperador do Leme, de 1966, e o Recreio do Leme, com quase trinta anos de balcão — de cerveja gelada em garrafa e comida caseira no almoço. Tem o Gaia Art & Café para quem quer prato vegetariano, e, no alto do Novotel, o rooftop Sky Leme, com piscina, drinque e a praia inteira aos pés.

O resumo de morador: paella no Shirley em dia de calma, David no sábado, sardinha na areia e pão francês de verdade no caminho de casa. O Leme perde um clássico de vez em quando, mas a mesa do bairro segue posta.

Foto de capa: A orla do Leme, onde ficam os quiosques do bairro. Foto: Leandro Neumann Ciuffo / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

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